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Arc Flash e a nova NR-10 (2026): o que mudou na proteção contra arco elétrico

O arco elétrico (arc flash) é um dos riscos mais graves e subestimados em instalações elétricas. Em milésimos de segundo, libera energia térmica intensa (que pode passar de 19.000 °C), pressão e estilhaços — causando queimaduras severas mesmo sem contato direto com partes energizadas. A republicação da NR-10 pela Portaria MTE nº 737/2026 trouxe, pela primeira vez, um tratamento explícito e estruturado para esse risco. Entenda o que mudou.

O que é energia incidente (e por que ela define tudo)

A gravidade de um arco elétrico é medida pela energia incidente — a quantidade de energia térmica (em cal/cm²) que atingiria a pele de um trabalhador a uma determinada distância, durante o arco. É a partir desse valor que se define a distância segura de aproximação e, principalmente, a vestimenta de proteção adequada, caracterizada pelo seu ATPV (Arc Thermal Performance Value, em cal/cm²). EPI com ATPV inferior à energia incidente do ponto não protege — daí a importância do cálculo correto.

A grande novidade: o Anexo IV da NR-10:2026

A NR-10 de 2004 tratava o risco de arco de forma genérica. A edição 2026 traz o Anexo IV, dedicado ao arco elétrico, com categorias de EPI por faixa de energia incidente. Isso formaliza algo que a boa prática já adotava: a seleção da vestimenta deixa de ser "no olho" e passa a ser resultado de um estudo de engenharia. O risco de arco também passa a integrar o GRO/PGR (item 10.3, conexão com a NR-01) e as zonas de risco do Anexo II (Zona de Risco, Zona Controlada e Zona Livre), que delimitam quem pode se aproximar e com qual proteção.

A norma técnica brasileira: ABNT NBR 17227:2025

Até pouco tempo, os estudos de arco no Brasil se apoiavam diretamente no IEEE 1584 e na NFPA 70E (referências internacionais). Agora existe a ABNT NBR 17227:2025, que incorpora a metodologia do IEEE 1584 ao contexto normativo brasileiro. Combinada com o Anexo IV da NR-10:2026, ela é a base para o estudo de energia incidente e a especificação de EPIs no país.

O estudo de Arc Flash, na prática

Um estudo de energia incidente envolve:

  • Levantamento do sistema: curtos-circuitos, ajustes e tempos de atuação das proteções (o tempo de eliminação da falta é determinante na energia liberada).
  • Cálculo da energia incidente (cal/cm²) por ponto de trabalho (painéis, QGBT, CCM, subestação).
  • Definição da fronteira de arco (arc flash boundary) e da categoria de EPI.
  • Etiquetagem dos painéis com energia incidente, distância segura e ATPV exigido — informação que precisa estar visível ao trabalhador.

Quando a energia incidente é muito alta (acima de cerca de 40 cal/cm²), entende-se que não há vestimenta que ofereça proteção adequada: a única medida segura é a desenergização. Por isso a proteção coletiva (desligar e garantir a ausência de tensão) tem sempre prioridade sobre o EPI, que é apenas a última barreira.

Hierarquia de controle: reduzir o risco na fonte

Mais do que vestir o trabalhador, a engenharia busca reduzir a energia incidente: revisar a seletividade e os ajustes das proteções, usar relés mais rápidos, sistemas de detecção óptica de arco, manutenção de disjuntores e, sempre que possível, trabalhar desenergizado com procedimento de bloqueio (LOTO) e Permissão de Trabalho (PT) — que na NR-10:2026 substitui a antiga Ordem de Serviço.

O que fazer na sua planta

Se a sua instalação ainda não tem um estudo de Arc Flash com etiquetas nos painéis e EPIs especificados por energia incidente, esse é um dos itens prioritários da adequação à nova NR-10 — e parte integrante do Prontuário das Instalações Elétricas (PIE, item 10.15). A transição de 1 ano (vigência plena em 01/06/2027) é a janela ideal para fazer o diagnóstico e adequar sem emergência.

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